Toponímia da Comarca do Rio das Mortes


A professora Maria Cândida Seabra iniciou mencionando o interesse de algumas áreas do conhecimento pela Toponímia, especialmente a Linguística, mas também a História, a Geografia, a Genealogia e outras. Entretanto, seu estudo ainda é recente no Brasil. Ao lado da Antroponímia, ou seja, do estudo dos nomes de pessoas, a Toponímia insere-se na Onomástica.

Sobre a significação dos nomes, citou como exemplo a pessoa que se chama Cláudia e nem sempre sabe que o antropônimo significa claudicar. O mesmo ocorre com os topônimos, como no caso de uma propriedade ter sido batizada com o nome de Fazenda Olho d´Água em referência a uma nascente que ali existia e depois que o olho d’água desapareceu ninguém mais entendia a razão do nome. Daí a importância da toponímia para outros estudos porque, ao recuperar o significado do nome, é possível restaurar informações sobre a localidade.

Assim ocorre com nomes que remontam a exemplares da fauna, da flora e também da ideologia, como nos casos de topônimos com nomes de santos católicos. Neste último caso, é preciso analisar com cuidado. Isto porque, se em Minas é comum dar o nome de um santo de devoção à propriedade, em Mato Grosso é comum que o marido compre uma fazenda e lhe ponha o nome da esposa, antecedido de Santa. Portanto, há que se considerar as práticas sociais da localidade e até mesmo descobri-las através do estudo dos topônimos.

A palestrante trabalha com três origens de dados sendo uma delas o IBGE, através da qual, em trabalho conjunto com seus alunos, foram levantados os nomes de todos os lugares do estado de Minas Gerais. O resultado foi um banco de dados com 85.000 nomes de lugares, fazendas, rios, córregos etc. Cada um deles encontra-se classificado pela origem, se é português ou híbrido com tupi, por exemplo. Outro índice classificatório foi a motivação para o nome, além de outras informações típicas. 

Em trabalho lançado recentemente, foi apresentada a conclusão de que os antigos nomes que interessavam aos portugueses eram em língua portuguesa e os demais eram em tupi.  

Outra fonte preciosa para o estudo são as cartas de sesmarias, das quais foram recuperados termos e significados nem sempre facilmente identificáveis.

Uma terceira vertente é a fonte oral, sendo importante destacar que muitos topônimos obtidos em entrevistas não estão registrados nos mapas. O exemplo citado foi de uma localidade referida como Pacaló, nome desconhecido. No decorrer da conversa obteve a informação de que o pasto ao lado era de Chico Lopes e, consultando uma carta de sesmaria de 1702, verificou que os requerentes foram Francisco Lopes e Pascoal Lopes. 

Em seguida a palestrante destacou um topônimo da Comarca do Rio das Mortes: Brumado, antigo nome da atual Entre Rio de Minas, tem origem na palavra espanhola ‘broma’ e seu significado, diferentemente do que se possa inicialmente pensar, nada ter a ver com bruma. Foi empregado em tempos coloniais para indicar embromação ou mistificação sobre desaparecimento de ouro. O Fanado, em Minas Novas, tem significado semelhante a Brumado, podendo ser entendido como a expressão ‘não deu em nada’. 

Os significados não são transparentes e é comum que se usem nomes como referência a alguma coisa cuja lembrança se perde com o tempo. No caso do Brumado, os estudos encontraram a indicação de que seria um lugar onde há notícia do aparecimento de minério que não se confirma. Entre as fontes utilizadas, a palestrante citou o Códice Costa Matoso e ressaltou que, neste trabalho, não basta ir a dicionários comuns. Mencionou a obra do Padre Rafael Bluteau, do século XVIII, considerado o primeiro dicionário da língua portuguesa.

Maria Cândida disse ser importante entender a mentalidade do denominador não só de forma isolada como também considerá-lo como parte de um grupo social. Apresentou Estiva como: entendida popularmente no interior como ponte tosca de madeira e no litoral tem outro significado. Já Noruega, de Catas Altas da Noruega, não faz referência ao país nórdico, mas a um pasto em que há pouca incidência de raios solares, sendo um termo da geografia muito usado no norte de Minas.

Mencionou também Indequecé, encontrado num mapa de Diogo de Vasconcelos da região de Vila Rica, e que remonta a um termo tupi - andirá quecé, que significa mato cortante. Alertou, porém, que embora seja necessário consultar obras de variado escopo, Diogo de Vasconcelos deve ser visto com um certo cuidado. Exemplificou com a afirmação do autor de que ‘gualaxo’ seria um termo tupi e com significado que se mostrou insustentável. Trata-se de um termo provavelmente do grupo Macro-Gê, encontrado no Rio Grande do Sul, em São Paulo e na América Central. Lembrou que ‘xopotó’ é termo também do grupo Macro-Gê utilizado em Minas, apesar de quase nada se conhecer da presença deste grupo na região.

No prosseguimento, informou que ‘grupiara’ tem relação com peixes e a forma mais usual é ‘gupiara’ em função da dificuldade de pronúncia do encontro consonantal. Em Costa Matoso aparece como sendo o córrego em que se fazia extração do cascalho.

Sobre Bom Sucesso, declarou que não tem vínculo com a expressão usual para desejar bons resultados, mas a Nossa Senhora do Bonsucesso, protetora de bens materiais.

Maria Cândida ressaltou que o estudo dos topônimos confirma que as palavras caminham muito próximas da história dos lugares e das pessoas, razão pela qual a denominação envolve fatores diversos. De tal forma que não se deve afirmar inquestionavelmente um significado sem um embasamento cuidadoso.

O topônimo é um patrimônio cultural que nos traz informações geográficas, étnicas, honoríficas etc. Muitos dos encontrados em Minas têm origem africana, sobre os quais há imensa dificuldade de pesquisa pela falta de boas fontes. 

Foram citadas outras obras importantes para o estudo da Toponímia como o Dicionário Etimológico de José Pedro Machado, a Contribuição Indígena ao Brasil do Irmão José Gregório e a obra de Nelson de Sena.

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