Italianos da Basilicata em Leopoldina


Nem todos os imigrantes procedentes da Basilicata foram colonos. Entretanto, os descendentes das famílias procedentes desta região italiana estão hoje vinculados a muitos dos antigos moradores da Colônia Agrícola da Constança.

Arleo, Bianco, Brando, Campagna, Conti, Cunto, Damiani, Domarco, Esposito, Falabella, Gesualdi, Iennaco, Lamarca, Lammoglia, Lingordo, Maciello, Marchetti, Panza, Rinaldi, Schettini e Viola são sobrenomes de ancestrais de muitos leopoldinenses.

A situação na Itália, segundo o Ministério da Agricultura

Os inquéritos do Ministério da Agricultura italiano, do final dos oitocentos, tem sido uma boa fonte de consulta para conhecer um pouco sobre as condições em que viviam os imigrantes que chegaram a Leopoldina no final daquele século. Numa tentativa de classificar a situação descrita nos relatórios a que tivemos acesso, observamos:
  1. Cereais, seda e lã estavam sofrendo concorrência dos preços baixos dos produtos importados;
  2. aumento de impostos;
  3. irrigação dificultada pelo alto custo da água;
  4. aumento do preço da mão de obra que se tornava escassa por causa da emigração;
  5. oferta de terrenos públicos para os contadini se tornarem pequenos proprietários;
  6. crédito agrícola dificultado pela usura.
Interessante notar que, considerados como causas da crise agrícola na Itália, estes fatores são mencionados em literatura como argumentos para as solicitações dos grandes proprietários no sentido de diminuir impostos. Mas os mesmos autores informam que a crise atingia mais fortemente os pequenos proprietários ou arrendatários e que por isto o trabalho dos lavradores contratados era pago com "salários de fome".

Imigrantes do Veneto


No início de nossas pesquisas, quase todos os descendentes referiam-se a duas "cidades" como origem de seus antepassados: Padova e Venezia.
Como já era esperado, na medida em consultávamos os registros de nascimento descobríamos que alguns nasceram no interior daquelas províncias e não em suas capitais. E uma parte significativa era de outras províncias do Veneto. Só conseguimos localizá-los após longas buscas, geralmente partindo dos sobrenomes encontrados nas Liste di Leva.

Albertoni, Ambrosi, Anzolin, Artuzo, Baldo, Battisaco, Beatrice, Bedin, Bellan, Borella, Bronzato, Bullado, Calzavara, Cancelliero, Canova, Canton, Carraro, Cavallieri, Ceoldo, Chiata, Chinelatta, Coin, Colle, Dorigo, Farinazzo, Favero, Fazolato, Finotti, Fiorato, Fofano, Formenton, Gallito, Gallo, Gambato, Geraldini, Golinelli, Gottardo, Guarda, Guerra, Lamassara, Lazzarin, Lorenzetto, Magiollo, Maimeri, Malacchini, Manfrim, Maragna, Marangoni, Marcatto, Marchi, Marinato, Mattiazi, Meneghelli, Meneghetti, Modenese, Montagna, Montracci, Moroni, Netorella, Perdonelli, Perigolo, Pesarini, Pessata, Pighi, Pinzoni, Pradal, Principole, Rancan, Ranieri, Righetto, Rinaldi, Saggioro, Sampieri, Scantabulo, Simionato, Stefani, Toda, Togni, Tosa, Trevisan, Trombini, Venturi, Zaffani, Zamboni
Hoje sabemos que a informação de muitos descendentes estava equivocada, já que seus antepassados procediam de outras regiões da Itália. E ainda temos um grande número de famílias não localizadas. Até o momento podemos informar apenas os sobrenomes acima como procedentes de Venezia, Padova, Rovigo, Verona, Vicenza e Belluno.

Emigração Temporária

Leoni Carpi, em Dell'Emigrazione Italiani all'Estero, publicado em 1871, apresenta dados semelhantes aos encontrados na obra de Franchetti e Sonnino, no que diz respeito à cultura de emigrar como um fenômeno que fazia parte da vida do italiano desde tempos remotos. Considerando que Carpi incluiu informações sobre as províncias do norte, enquanto Franchetti e Sonnino trataram da Sicilia, a similitude de informações respalda conclusões extraídas das entrevistas com descendentes de imigrantes italianos que viveram em Leopoldina. Trata-se de considerar que os nossos colonos viviam numa sociedade em que as fronteiras nacionais não impediam deslocamentos frequentes para trabalhar na colheita ou em obras públicas dos países vizinhos.

A emigração temporária era assimilada pelos trabalhadores como um fato natural, permitindo que eles formassem uma boa poupança que garantia o sustento de suas famílias, com as quais geralmente conviviam quase que somente durante o inverno. Entre outros números, os autores citados mencionam os cerca de 10.000 indivíduos da província de Belluno e os 2.000 de Bergamo que passaram a temporada de 1872 longe de suas famílias. Quase todos os autores que consultamos utilizam as antigas obras sobre o assunto para afirmar que a emigração temporária sempre foi considerada uma fonte de riqueza para o Estado italiano.

Sendo assim, não nos surpreende que descendentes das famílias Anzolin, Casadio, Conti, Gottardo, Guersoni, Marchesini, Minelli, Rancan, Tazzari e Zamagna tenham mencionado as temporadas de seus antepassados em outros países. Em algumas delas, parece que o fato dos arregimentadores exigirem que trouxessem a família para o Brasil não foi percebido como contratação do "pacote completo", ou seja, que filhos e esposa aumentavam a força de trabalho disponível e seriam submetidos ao mesmo regime dos chefes de família. Por outro lado, a Itália negociou a vinda de seus habitantes no mesmo modelo praticado já de longa data, qual seja a de formação de colônias italianas no exterior.

Imigrantes do Marche



Desta região temos referência a imigrantes procedentes das províncias de Ancona e Macerata. Os sobrenomes até aqui identificados foram:
Bartoli, Bedin, Carboni, Gismondi, Griffoni, Marchesini, Marinozzi, Pelucci, Possenti, Toccafondo

Uma diferença entre os imigrantes em Leopoldina

Mandamos para o lado de lá dos mares a única mercadoria de que temos abundância: o homem.

Esta declaração do político italiano Giustino Fortunato, num discurso incluído na série de 1880 a 1910 publicada sob o título Il Mezzogiorno e lo Stato Italiano, nos faz pensar na união de dois interesses: a Italia entendia ser necessário exportar uma parte de seus habitantes e o Brasil buscava soluções para acabar com a escravidão.

Visto por este prisma, a chegada do imigrante italiano em nossas fazendas afasta qualquer tentativa de romancear o assunto. Entretanto, parece que os colonos transmitiram a seus descendentes uma outra visão, talvez por desconhecerem o que se passava na esfera do poder. Por outro lado, há que se considerar os não colonos, ou seja, os que se estabeleceram desde o início na área urbana e que talvez tenham contribuído para o nascimento das memórias familiares que tratam de fugas do alistamento militar e embarques ilegais. De modo geral, estas versões se referem aos italianos no mezzogiorno.

Segundo Gramsci em O Sul e a Guerra, o processo de unificação da Italia, realizado para atender aos interesses do capital, resultou na transferência "de todo dinheiro líquido do Sul para o Norte". Este aspecto da chamada "Questione Meridionale" parece ter sido uma das alavancas para a emigração no período imediatamente posterior à década de 1860.

Gramsci declara ser injusta a acusação de falta de iniciativa da população meridional como causa do baixo desenvolvimento da região. Para ele, o capital procura instalar-se onde são mais rentáveis os investimentos e o poder central não ofereceu condições de desenvolvimento industrial no sul. Para outros estudiosos da Questão Meridional, o carreamento de capital para o norte não deixou outra alternativa além do abandono da pátria, ainda que inicialmente pensada individualmente como temporária.

O estudo da trajetória dos que chegaram a Leopoldina antes do período denominado Grande Imigranção é dificultado pela falta de registros mais detalhados nas fontes que foram preservadas. Na pequena amosta que pudemos reunir, observamos que os chegados antes de 1888 nasceram na Campania (Pagano), Basilicata (Brando) ou Calabria, eram imigrantes com recursos próprios e viajaram sem subvenção. Portanto, não vieram estimulados pelos projetos de colonização agrícola. Entre eles estão os casos de viagens temporárias à Itália depois de aqui estabelecidos. E aqui cabe uma distinção importante.

Entre os imigrantes cuja primeira vinda ao Brasil ocorreu na última década do século XIX, indentificamos alguns casos de viagem de volta, ou seja, objetivando o retorno definitivo (Lupatini e Moroni). Mesmo que mais tarde uns poucos tenham voltado para o Brasil, classificamos como retorno definitivo as situações em que a família buscou embarque subvencionado e não deixou bens ou vínculos outros em Leopoldina. Até o momento, nesta classificação estão apenas italianos do norte.

A moradia dos colonos

La Sicilia nel 1876, obra de Leopoldo Franchetti e Sidney Sonnino, é leitura muito interessante para compreender as condições de vida dos imigrantes que se dispuseram a deixar a terra natal em busca de melhores condições de vida.

Os autores realizaram extensa pesquisa para escrever sobre as condições políticas e administrativas da Sicilia. Em muitos momentos, chama a atenção a opinião manifesta sobre o tipo de moradia que acreditamos poder resumir com o seguinte trecho (pág. 312-313):

La questione delle abitazioni della classe povera e che vive del lavoro delle sue braccia, è una delle più gravi dell’epoca nostra, e che in Sicilia ha una urgenza speciale.


Aliás, todo o capítulo II é muito esclarecedor. Sob o título Abitazioni Rurali, os autores nos fazem refletir sobre os sonhos que possam ter nascido entre aqueles que, não podendo oferecer um mínimo de conforto aos seus familiares, optaram por um país chamado Brasil, tão distante e do qual provavelmente pouco sabiam.

Quando resumimos nossos estudos sobre a moradia na Colônia Agrícola da Constança, para publicar uma coluna a respeito, não poderíamos nos estender como gostaríamos. Entretanto, acreditamos que todos quantos se dedicam ao estudo da imigração italiana para o Brasil já tiveram oportunidade de considerar que nossas Colônias Agrícolas ofereciam mais conforto para aqueles italianos.

Em Leopoldina temos referência à família Marsola, da Sicilia, provavelmente radicada no distrito de Ribeiro Junqueira. Embora pouco saibamos sobre eles, queremos crer que tenham encontrado em nossa cidade uma "habitação conveniente" como queriam Franchetti e Sonnino.